Resenha: A arte de ouvir o coração [Jan-Philipp Sendker]

26 jul

O coração acelerado, sudorese nas mãos e hormônios responsáveis pela sensação de euforia totalmente elevados ao máximo. Se você já sentiu tudo isso quando o carteiro anuncia a chegada de um novo livro, parabéns, você é uma pessoa normal! (Apenas um pouco viciada demais em livros, mas ainda é normal! Rsrsrsrsrsrs)

Brincadeiras e diagnósticos a parte, é exatamente isso que sinto toda vez que compro um livro novo. Agora tentem imaginar como me senti quando o carteiro me trouxe um livro que eu sequer comprei?

Para quem não sabe, blogueiros de páginas que tratam de todo o universo que permeia os livros podem solicitar a parceria de editoras e autores para divulgar o que há de novo no mercado literário para vocês, leitores. Claro que, muitos solicitam essas parcerias apenas visando a aquisição de livros. Sim, isso é o máximo, mas não é APENAS isso que uma parceria dessas oferece.

E a Companhia das Letras me surpreendeu com o e-mail resposta à minha solicitação de parceria. Eles não estavam com processo de inscrições abertas na época, mas ofereceram como contrapartida a Loteria da Companhia das Letras para Blogueiros. Uma vez inscrito, o blog concorre a um dos títulos disponíveis e, o mais legal é que todos os inscritos têm chances, já que quem ganhou não participa mais dos próximos sorteios. Não gosto de puxar sardinha para ninguém, mas ações como essas da Companhia das Letras são inspiradoras não apenas para quem escreve sobre livros, mas principalmente para incentivar o hábito de leitura, que hoje é ainda tão limitado no Brasil.

Para ser sincera, eu nem me lembrava mais de ter me inscrito na Loteria da Companhia das Letras. Mas então, quando o carteiro chegou com o envelope rechonchudo, na hora senti todos os sintomas de um bookaholic! Espero que gostem da resenha de hoje e adquiram um exemplar desse livro (eu já pretendo encomendar dois para dar de presente!) que me conquistou, tanto pela história, como pela forma como ele chegou a mim.

Ficha Técnica:

2013-07-26 11.18.16
Autor –
Jan-Phillip Sender
Editora –
Companhia das Letas (Selo Paralela)
Gênero –
Romance
Ano –
2013
Páginas –
256

 

 

 

Sinopse:

Um bem sucedido advogado de Nova York desaparece de repente sem deixar vestígios, e sem que sua família tenha qualquer ideia de onde ele possa estar. Isso até o dia em que Julia, sua filha, encontra uma carta de amor que ele escreveu há muitos anos para uma mulher birmanesa da qual nunca tinha ouvido falar. Com a intenção de resolver o mistério e descobrir enfim o passado de seu pai, Julia decide viajar para a aldeia onde a mulher morava. Lá, ela descobre histórias de um sofrimento inimaginável, a resistência e a paixão que irão reafirmar a crença no poder que o amor tem de mover montanhas. Uma história de amor comovente e inspiradora, A Arte de Ouvir o Coração vai ensiná-lo a ver o mundo de outra forma.

Z_Resenhas

 

Onde comprar:

Companhia das Letras | Saraiva | SubmarinoLivraria Cultura

 

Minha Opinião:

A história é dividida em três partes, cada uma com sua retomada da contagem numérica de capítulos. Ao final do 15º capítulo da primeira parte, eu confesso que estava bastante confusa! Isso porque a narrativa inicia no ponto de vista de Julia e então varia para narrador em 3º pessoa que descreve os sentimentos e emoções de vários personagens e depois volta para a visão de Julia. Só no capítulo 1 da segunda parte que eu comecei a entender por que a primeira parte foi descrita dessa maneira. E então, quando essa variação de narrativa aconteceu novamente nos capítulos seguintes, já me senti mais confortável e até fiquei aguardando por essas mudanças para mergulhar mais a fundo no mistério que cerca o sumiço do pai de Julia e o que isso tinha a ver com a história que U Ba, um velho sábio do vilarejo de Kalaw, conta a Julia.
Jan-Philipp Sendker me proporcionou uma imersão numa cultura tão diferente da nossa e também diferente da realidade de Julia (a quem me recuso chamar de protagonista da história! Quem ler vai entender por que! Risos). Conhecer mais a fundo cada detalhe de um país tão distante como a Birmânia e de costumes tão peculiares como os do povo de Kalaw foi uma experiência que eu não esperava vivenciar por meio da leitura de um romance como esse. Além disso, Sendker é detalhista ao ponto de tornar sua escrita incrivelmente sensorial. É impossível não ler um parágrafo sequer e não sentir os odores descritos, as variações climáticas, a textura de tudo o que os personagens tocam e, principalmente, ouvir – ou tentar – o que eles ouvem.
A história de Tin Win é tocante em todos os detalhes porque me mostrou a frieza e descaso do ser humano, mas também a intensidade de sentimentos nobres como a amizade, devoção, cuidado e amor. Tudo isso em apenas 253 páginas. Aí você me pergunta: Mas na sinopse não diz que Julia é quem procura pelo pai? Sim, essa questão foi o que mais me deixou intrigada sobre as idas e vindas de ponto de vista narrativo na primeira parte! Mas isso é o que tornou a leitura muito mais instigante!
Esse é o tipo de livro que eu não apenas gosto de manter por perto, como também gosto de presentear porque instiga o questionamento de nossos conceitos que às vezes construímos e sustentamos por tanto tempo, julgando como imutáveis e inquestionáveis. O tipo de livro que causa reflexão e valorização de atitudes e sentimentos!

“(…) A essência de algo é invisível aos olhos, dizia U May. Aprenda a perceber a essência de algo. Os olhos podem mais prejudicar do que ajudar, nesse aspecto. Eles nos distraem. Adoramos nos deslumbrar.” Página 208

O final dessa história toda, com a solução para o mistério que Julia buscava resolver, é surpreendente. Não existe outra palavra que definiria melhor. Depois de ler você pode até pensar: “Dã, era tão óbvio!”, mas na maneira como Sendker escreveu tornou tudo muito imprevisível e emocionante, pelo menos para mim.
Claro que no meio da história eu comecei a fazer minhas suposições sobre o paradeiro do pai de Julia. Nenhuma delas chegou perto o suficiente da verdade do que realmente aconteceu e, nenhuma, mesmo com todo o esforço da minha imaginação fértil, se aproximou da carga de significados que existe por trás do final real.
Resumindo, as lições que tirei dessa leitura foram:
1 – O sofrimento na vida é algo que está além de nossas forças, podendo ser apenas resultado de uma junção mal ajustada das estrelas, um imprevisto da natureza ou o plano de algo maior – dependendo da sua cultura e crença. Mas o sofrimento na vida é algo com o qual devemos aprender a viver. Não superar, mas sim viver.
2 – Nem sempre as pessoas com quem contamos são exatamente aquelas em quem confiamos. As pessoas com quem contamos são aquelas que nos oferecem apoio e ajuda em tudo o que precisarmos no sentido físico. Já aquelas em quem confiamos são aquelas em quem depositamos nossos mais profundos segredos, que nos ouve e nos vê sem nos julgar e em quem podemos nos apoiar para sermos levados a lugares onde nossos pés jamais alcançariam ou enxergar coisas que nossos olhos jamais seriam capazes de ver. E, às vezes, a vida nos apresenta a uma pessoa em quem podemos confiar e contar.
3 – Nem sempre conhecemos tão bem as pessoas com quem nos relacionamos, mesmo que convivamos com elas diariamente e por anos.
4 – A rara habilidade de ouvir um coração bater pode se aplicar no sentido literal em casos como o de Tin Win, mas também serve como instrução para que aprendamos a absorver mais do mundo que nos rodeia.

E falando em sentido físico, eu amei, de paixão mesmo, sem exageros, a diagramação desse livro! Eu não sou muito fã de insetos eca!, mas sempre gostei muito de borboletas. E ultimamente andei pesquisando sobre técnicas de decoração de interiores com borboletas, que vão desde a impressão de gravuras estilizadas e adesivos de parede até molduras, quadros de acrílico e telas com borboletas empalhadas.

Quando eu vi a capa do livro, mesmo antes de ler qualquer coisa, pensei que a história teria algo relacionado com a natureza. Não estava de todo errada no final, mas compreendi que os insetos remetiam à curiosidade de Tin Win de desvendar tudo o que ele tanto ouvia, conseguindo assim aprimorar a capacidade de discernir cada som por suas peculiaridades. E no final, quando Julia descobre o que aconteceu com o pai dela, achei isso incrível porque me ensinou que não é preciso amar alguém pelo o que você vê superficialmente. É possível sim amar alguém conhecendo apenas as peculiaridades que compõem essa pessoa.

E uma curiosidade: Enquanto eu escrevia essa resenha, parei, alisei a capa do livro, contornei cada desenho e percebi uma coisa que me intrigou. Apenas o título e a metade de baixo dos desenhos de insetos estão cobertas por uma película brilhante. A parte superior da capa está fosca. Não sei dizer se é algum defeito de impressão ou se foi intenção da Editora Paralela (braço da Companhia das Letras e responsável pelo envio da obra pela Loteria da editora). Se foi intencional, eu ainda não consegui compreender o sentido disso, mas achei interessante.

Enfim, A Arte de Ouvir o Coração me conquistou de uma maneira que eu não esperava, mas que estava precisando. Tenho certeza que, quem o adquirir, vai colocar em sua estante uma obra capaz de tocar em todos os seus sentidos e também nos alicerces do seu interior.

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